quinta-feira, junho 4, 2026
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Alzheimer: o elemento pouco falado de Ainda Estou Aqui |

No livro Ainda Estou Aqui (Alfaguara – clique para comprar*), Marcelo Rubens Paiva compara o Alzheimer a uma visita indesejada – daquelas que sobem pelo elevador sem serem anunciadas na portaria.

Da primeira vez que ouviu o barulho da campainha, o escritor tomou um susto. “De onde você tirou isso?â€, riu, surpreso, quando uma amiga perguntou: “Sua mãe tem Alzheimer?â€. Antes disso, Ana Lúcia Paiva, a Nalu, uma de suas quatro irmãs, já tinha reparado o quanto a mãe andava confusa com algo até então banal: contas a pagar. “Mamãe está tão estranha…â€, deixou escapar.

Certa vez, a vizinha da porta da frente encontrou Eunice Paiva, mãe de Marcelo, parada no corredor do prédio onde moravam. O elevador chegou, a vizinha desceu, e Eunice continuou lá, imóvel. Ah, detalhe: estava de camisola! “Sua mãe não está bemâ€, avisou para Marcelo e suas irmãs. Noutra ocasião, Eunice comprou duas televisões quando não precisava de nenhuma.

“O que eu vim mesmo fazer aqui?â€, perguntou no caixa da loja. “Comprar uma TVâ€, respondeu a vendedora. Foi ao balcão e comprou mais uma: a terceira.

Sim, Eunice Paiva, que agora ganhou fama mundial, travou duas longas batalhas: uma contra a ditadura; outra contra o Alzheimer. As duas estão descritas no livro Ainda Estou Aqui, que virou longa-metragem pelas mãos talentosas do cineasta Walter Salles e ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional.

Na manhã do dia 20 de janeiro de 1971, seu marido, o engenheiro civil e deputado federal cassado Rubens Paiva, saiu de casa para depor e nunca mais voltou. Seu corpo jamais foi encontrado.

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Dona de casa, Eunice se viu sozinha para criar os cinco filhos do casal: Vera, Eliana, Ana Lúcia, Marcelo e Beatriz, com idades entre 10 e 16 anos. Com as contas bloqueadas, precisou fazer outra faculdade. Passou em primeiro lugar para Direito.

Não descansou enquanto não conseguiu tirar a certidão de óbito do marido. Era o dia 23 de fevereiro de 1996. “Ela ergueu o atestado como um troféuâ€, recorda o escritor. “Foi naquele momento que descobri: ali estava a verdadeira heroína da famíliaâ€.

A segunda batalha

Marcelo não sabe dizer quando teve início a luta de sua mãe contra o Alzheimer.

São 14 os fatores de risco, lista a geriatra Celene Pinheiro, presidente da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz): baixa escolaridade, perda auditiva, hipertensão, obesidade, diabetes, sedentarismo, colesterol alto, tabagismo, consumo excessivo de álcool, perda visual, traumatismo craniano, depressão, isolamento social e poluição.

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+Leia também: 10 fatores que pesam na prevenção da demência

O autor se orgulha da saúde invejável da mãe: nunca ficou doente, lia sem parar, fazia tudo a pé, nadava no mar de Búzios… No entanto, foi presa e interrogada no DOI-Codi, o maior centro de tortura da América Latina, por 12 dias: de 21 de janeiro a 2 de fevereiro de 1971.

“As famílias das pessoas mortas pelo regime militar sofreram imensamente por períodos longuíssimos. Não sabiam se o seu ente querido estava vivo ou morto. Mais do que isso: temiam pela própria vida e pela dos demais membros da família. Todo esse sofrimento traz graves consequências para a saúde mentalâ€, afirma a médica.

No livro, Marcelo Rubens Paiva repete a palavra Alzheimer 34 vezes. A primeira delas na página 18 e a última, na 261.

Entre uma e outra, chama a condição de “doença do esquecimentoâ€, critica o uso do substantivo “mal†na frente do nome da doença (“Toda vez que alguém diz: ‘Sua mãe tem mal de Alzheimer', eu corrijo: ‘Ela tem Alzheimer'â€) e explica que Alzheimer é, na verdade, o sobrenome do primeiro médico a descrever a patologia: o psiquiatra alemão Alois Alzheimer, em 1906 (“Muitas velhinhas gagás, esclerosadas do passado, tinham Alzheimerâ€).

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Por fim, enumera algumas dicas dadas por um amigo da família, o médico oncologista Drauzio Varella, como usar uma pulseira de identificação, limitar suas opções de escolha, tirar os tapetes da casa, estimular o convívio familiar e, se possível, providenciar ajuda profissional.

+Leia também: Alzheimer: 7 dicas para se comunicar com alguém com demência

Um problema comum

O Alzheimer atinge hoje, segundo estimativa da Associação Internacional de Alzheimer (ADI, na sigla em inglês), 55 milhões de pessoas no mundo. Estima-se que, em 2030, serão 82 milhões e, 20 anos depois, 152 milhões.

No Brasil, o número atual de pacientes é de 1,2 milhões. O Alzheimer é uma condição neurológica degenerativa progressiva que consiste na perda de memória e outras habilidades cognitivas, como linguagem, concentração e raciocínio.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Alzheimer é responsável por até 75% dos casos de demência. Em pessoas com mais de 85 anos, o percentual de incidência chega a 25%. Uma curiosidade: mulheres têm até três vezes mais chances de desenvolver Alzheimer do que os homens.

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Entre outros sintomas, o paciente com Alzheimer não se lembra do que aconteceu no dia anterior, repete as mesmas perguntas várias vezes, esquece o que está prestes a fazer e perde objetos com frequência acima do normal.

+Leia também: Problemas de memória: como saber se pode ser Alzheimer?

Alzheimer não tem cura, mas tem prevenção. A principal estratégia é evitar ou tratar fatores de risco como tabagismo, obesidade e doenças crônicas não controladas, em especial hipertensão e diabetes.

“Praticar atividade física, manter a mente ativa e promover a vida social são medidas de prevençãoâ€, observa o neurologista Adalberto Studart Neto, da Academia Brasileira de Neurologia (ABN). “Podem reduzir as chances do problema surgir ou, pelo menos, adiar sua evoluçãoâ€.

Quando Marcelo Rubens Paiva lançou Ainda Estou Aqui em 2015, Eunice Paiva estava viva. “A coisa que eu mais admiro nela e tento levar como um exemplo para a minha vida: ela nunca sentiu pena de siâ€, relata o filho e autor.

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Eunice Paiva morreu três anos depois, no dia 13 de dezembro de 2018, aos 86 anos.

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